Crueldade Animal e a Cultura da Impunidade que Ainda Persiste

_Os recentes casos de violência contra animais registrados em Manaus reacendem um debate que o Brasil insiste em adiar: até quando a sociedade aceitará que crimes contra a vida animal sejam tratados com morosidade, relativização ou, pior, naturalização?_

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Em menos de 48 horas, dois episódios chocaram a população amazonense e reforçaram uma realidade preocupante. No primeiro, um homem foi preso suspeito de quebrar as pernas de um filhote de cachorro, mantido em condições degradantes, sem alimentação, água ou abrigo adequado.

No segundo, dois cães morreram após serem atropelados por uma viatura da Polícia Militar, situação que levanta questionamentos não apenas sobre responsabilidade individual, mas também sobre preparo institucional e protocolos de conduta.


No caso envolvendo a Polícia Militar, a decisão da Justiça de converter a prisão do cabo responsável pela condução da viatura em prisão preventiva surge como um sinal relevante de que medidas mais rigorosas começam a ser adotadas. A medida demonstra que a gravidade de crimes dessa natureza vem sendo reconhecida pelas autoridades e reforça a mensagem de que a responsabilização deve alcançar qualquer cidadão, independentemente da função pública que exerça.

Trata-se de um passo importante no fortalecimento da confiança social nas instituições e na ideia de que não pode haver tratamento diferenciado quando há indícios de violência.
Casos como esses deixam evidente que a violência contra animais não é um fenômeno isolado. Ela reflete um problema estrutural, que envolve falhas na educação, na fiscalização e, principalmente, na efetividade da punição.


A repercussão nacional recente envolvendo a morte do cachorro Orelha, em Santa Catarina, evidencia essa fragilidade do sistema. Inicialmente, a comoção pública foi alimentada por informações sobre o possível envolvimento de mais de um adolescente no crime. Contudo, após a conclusão das investigações, a Polícia Civil apontou que apenas um adolescente foi responsabilizado pela morte do animal. O desfecho, ainda que juridicamente fundamentado, gerou frustração em parcela significativa da população, revelando o distanciamento entre o clamor social por justiça e as limitações legais existentes, especialmente quando envolvem menores de idade.


A Lei nº 14.064/2020, conhecida como Lei Sansão, representou um avanço importante ao endurecer as punições para maus-tratos contra cães e gatos. No entanto, legislação, por si só, não transforma realidade. Sem investigações céleres, responsabilizações efetivas e decisões judiciais firmes, a lei corre o risco de permanecer apenas como resposta simbólica à pressão popular.
Outro ponto que merece reflexão é o impacto social desses crimes. O Brasil possui milhões de animais domésticos inseridos no ambiente familiar, onde deixam de ser vistos apenas como propriedade e passam a ocupar espaço afetivo. Quando um caso de crueldade ganha repercussão, ele ultrapassa a esfera criminal e atinge diretamente a sensibilidade coletiva.


Mais grave ainda é quando episódios dessa natureza envolvem agentes públicos. A sociedade deposita nas forças de segurança a confiança na proteção da vida e na aplicação da lei. Quando surgem denúncias ou suspeitas envolvendo integrantes dessas instituições, o dano vai além do caso isolado, atingindo a credibilidade do próprio Estado. Por isso, respostas firmes e transparentes tornam-se fundamentais para preservar essa confiança.


O enfrentamento da violência contra animais exige mais do que punição. Ele passa por educação desde a infância, campanhas permanentes de conscientização e fortalecimento das políticas públicas de proteção animal. No entanto, é inegável que a responsabilização rigorosa possui efeito pedagógico e preventivo. A certeza da punição continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para coibir a reincidência.


Também é fundamental destacar o papel da sociedade nesse processo. A denúncia continua sendo um instrumento indispensável para romper ciclos de violência que, muitas vezes, ocorrem dentro de residências ou em locais afastados do olhar público. A omissão, nesses casos, contribui diretamente para a perpetuação do problema.


Os episódios recentes no Amazonas e a repercussão nacional de casos semelhantes mostram que o Brasil vive um momento decisivo na consolidação de uma cultura de respeito à vida animal. O debate não deve se limitar à indignação momentânea nas redes sociais ou à comoção diante de imagens chocantes. Ele precisa se transformar em políticas públicas consistentes, fortalecimento das instituições e aplicação rigorosa das leis já existentes.


O respeito aos animais não é apenas uma questão de sensibilidade. É um indicador do nível de desenvolvimento moral e social de uma comunidade. Onde a crueldade é tolerada, outras formas de violência encontram terreno fértil para crescer.
O combate aos maus-tratos, portanto, não é uma pauta secundária. É uma medida de civilidade.

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